João 1
Do Comentário Conciso de Matthew Henry, na tradução do Bíblia.teo.br. Ler João 1
Introdução a João
João, apóstolo e evangelista, parece ter sido o mais novo dos doze. Foi especialmente favorecido com a estima e a confiança do nosso Senhor, a ponto de ser chamado o discípulo a quem Jesus amava. Era sinceramente apegado ao seu Mestre. Exerceu seu ministério em Jerusalém com muito fruto e sobreviveu à destruição da cidade, conforme a predição de Cristo Jo 21:22. A história conta que, depois da morte da mãe de Cristo, João morou principalmente em Éfeso. Perto do fim do reinado de Domiciano, foi desterrado para a ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse. Quando Nerva subiu ao trono, ele foi posto em liberdade e voltou a Éfeso, onde se pensa que escreveu o seu Evangelho e as suas Epístolas, por volta do ano 97 d.C., e morreu pouco depois.
O propósito deste Evangelho parece ser dar ao mundo cristão uma ideia correta da verdadeira natureza, do ofício e do caráter daquele Mestre divino que veio instruir e redimir a humanidade. Para isso, João foi guiado a escolher para a sua narrativa os episódios da vida do nosso Salvador que mais claramente mostravam o seu poder e a sua autoridade divinos, e os discursos em que ele falou mais abertamente da sua própria natureza e do poder da sua morte como expiação pelos pecados do mundo. Ao omitir os acontecimentos registrados pelos outros evangelistas, ou mencioná-los só de passagem, João deu testemunho de que as narrativas deles são verdadeiras e abriu espaço para as afirmações doutrinárias já mencionadas e para detalhes omitidos nos outros Evangelhos, muitos dos quais são de grande importância.
Versículos 1–5
Ler João 1:1-5A razão mais simples pela qual o Filho de Deus é chamado o Verbo parece ser esta: assim como as nossas palavras explicam a nossa mente aos outros, o Filho de Deus foi enviado para revelar ao mundo a mente de seu Pai. O que o evangelista diz de Cristo prova que ele é Deus. Ele afirma a sua existência no princípio e a sua coexistência com o Pai: o Verbo estava com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e não como por um instrumento. Sem ele nada do que foi feito se fez, desde o mais elevado dos anjos até o mais humilde dos vermes. Isso mostra quão bem qualificado ele era para a obra da nossa redenção e salvação.
A luz da razão, bem como a vida dos sentidos, procede dele e depende dele. Este Verbo eterno, esta verdadeira Luz, resplandece, mas as trevas não a compreendem. Oremos sem cessar para que os nossos olhos sejam abertos a fim de contemplar esta Luz, para que andemos nela e assim sejamos feitos sábios para a salvação, pela fé em Jesus Cristo.
Versículos 6–14
Ler João 1:6-14João Batista veio para dar testemunho a respeito de Jesus. Nada mostra mais plenamente a escuridão da mente dos homens do que o fato de que, tendo a Luz aparecido, foi preciso uma testemunha para chamar a atenção para ela. Cristo era a verdadeira Luz, aquela grande Luz que merece ser assim chamada. Por meio do seu Espírito e da sua graça, ele ilumina todos os que são iluminados para a salvação; e os que não são iluminados por ele perecem nas trevas.
Cristo estava no mundo quando tomou sobre si a nossa natureza e habitou entre nós. O Filho do Altíssimo esteve aqui, neste mundo inferior. Estava no mundo, mas não era do mundo. Veio salvar um mundo perdido, porque era um mundo feito por ele. No entanto, o mundo não o conheceu. Quando ele vier como Juiz, o mundo o conhecerá. Muitos dizem que são de Cristo, e contudo não o recebem, porque não querem abrir mão dos seus pecados nem querem que ele reine sobre eles.
Todos os filhos de Deus nascem de novo. Este novo nascimento se dá pela palavra de Deus como meio, 1Pe 1:23, e pelo Espírito de Deus como Autor. Por sua presença divina, Cristo sempre esteve no mundo. Mas, chegada agora a plenitude do tempo, ele esteve de outra maneira: Deus manifestado em carne.
Observe, porém, os raios da sua glória divina, que se projetavam através desse véu de carne. Os homens revelam as suas fraquezas àqueles que lhes são mais familiares, mas não foi assim com Cristo: os que lhe eram mais íntimos viram mais da sua glória. Embora estivesse na forma de servo quanto às circunstâncias exteriores, ainda assim, quanto às graças, a sua forma era semelhante à do Filho de Deus. A sua glória divina apareceu na santidade da sua doutrina e nos seus milagres. Ele era cheio de graça, plenamente aceito por seu Pai e, por isso, qualificado para interceder por nós; e cheio de verdade, plenamente conhecedor das coisas que devia revelar.
Versículos 15–18
Ler João 1:15-18Quanto à ordem do tempo e ao início da sua obra, Cristo veio depois de João, mas em todos os outros aspectos ele era antes dele. A expressão mostra claramente que Jesus já existia antes de aparecer na terra como homem. Nele habita toda a plenitude, e é somente dela que os pecadores caídos têm recebido e hão de receber, pela fé, tudo o que os torna sábios, fortes, santos, úteis e felizes.
Tudo o que recebemos por meio de Cristo se resume nesta única palavra: graça. Recebemos a própria “”, uma dádiva tão grande, tão rica, tão inestimável; a boa vontade de Deus para conosco e a boa obra de Deus em nós. A lei de Deus é santa, justa e boa, e devemos fazer dela o devido uso. Mas dela não podemos obter perdão, justiça nem força. Ela nos ensina a adornar a doutrina de Deus, nosso Salvador, mas não pode tomar o lugar dessa doutrina. Assim como nenhuma misericórdia vem de Deus aos pecadores senão por meio de Jesus Cristo, ninguém pode vir ao Pai senão por ele; ninguém pode conhecer a Deus, a não ser como ele se dá a conhecer no Filho unigênito e amado.
Versículos 19–28
Ler João 1:19-28João negou ser o Cristo, que agora era esperado e aguardado. Ele veio no espírito e no poder de Elias, mas não era a pessoa de Elias. João não era aquele Profeta que, segundo Moisés, o Senhor levantaria para eles, dentre os seus irmãos, semelhante a ele. Não era o tipo de profeta que eles esperavam, que os livraria dos romanos. Ele deu de si mesmo um testemunho tal que podia despertá-los e movê-los a ouvi-lo. Batizava o povo com água, como profissão de arrependimento e como sinal exterior das bênçãos espirituais que lhes seriam concedidas pelo Messias, o qual estava no meio deles, embora não o conhecessem, e a quem ele não era digno de prestar o mais humilde serviço.
Versículos 29–36
Ler João 1:29-36João viu Jesus, que vinha para ele, e o apontou como o Cordeiro de Deus. O cordeiro pascal — com o derramamento e a aspersão do seu sangue, o assar e o comer da sua carne e todas as demais circunstâncias da ordenança — representava a salvação dos pecadores pela fé em Cristo. E os cordeiros sacrificados toda manhã e toda tarde só podem referir-se a Cristo, imolado como sacrifício para nos remir para Deus pelo seu sangue. João veio como pregador do arrependimento, mas disse aos seus seguidores que deviam esperar o perdão dos seus pecados unicamente de Jesus e da sua morte.
É coerente com a glória de Deus perdoar todos os que dependem do sacrifício expiatório de Cristo. Ele tira o pecado do mundo; compra o perdão para todos os que se arrependem e creem no evangelho. Isso encoraja a nossa fé: se Cristo tira o pecado do mundo, por que não o meu pecado? Ele carregou o pecado por nós e, assim, o tira de nós. Deus poderia ter tirado o pecado tirando o pecador, como removeu o pecado do mundo antigo; mas aqui há um modo de eliminar o pecado poupando o pecador: fazendo de seu Filho pecado, isto é, oferta pelo pecado, por nós. Veja Jesus tirando o pecado, e que isso produza ódio ao pecado e resoluções contra ele. Não nos agarremos àquilo que o Cordeiro de Deus veio tirar.
Para confirmar o seu testemunho acerca de Cristo, João declara a manifestação que houve no batismo de Jesus, na qual o próprio Deus deu testemunho a respeito dele. Ele viu e deu testemunho de que este é o Filho de Deus. Este é o fim e o objetivo do testemunho de João: que Jesus era o Messias prometido. João aproveitou todas as oportunidades que se apresentaram para conduzir as pessoas a Cristo.
Versículos 37–42
Ler João 1:37-42O argumento mais forte e mais persuasivo para que uma alma despertada siga a Cristo é que somente ele tira o pecado. Seja qual for a comunhão que exista entre as nossas almas e Cristo, é ele quem inicia a conversa. Ele perguntou: Que buscais? A pergunta que Jesus lhes fez, devemos todos fazê-la a nós mesmos quando começamos a segui-lo: o que pretendemos e desejamos? Ao seguir a Cristo, buscamos o favor de Deus e a vida eterna?
Ele os convida a vir sem demora. Agora é o tempo aceitável, 2Co 6:2. É bom para nós estar onde Cristo está, seja onde for. Devemos trabalhar pelo bem espiritual dos que são nossos parentes e procurar trazê-los a ele. Os que vêm a Cristo devem vir com a firme resolução de lhe serem fiéis e constantes, como uma pedra, sólida e firme; e é pela graça dele que são assim.
Versículos 43–51
Ler João 1:43-51Veja a natureza do verdadeiro cristianismo: é seguir a Jesus, consagrar-nos a ele e andar nas suas pisadas. Observe a objeção que Natanael fez. Todos os que desejam tirar proveito da palavra de Deus devem precaver-se contra preconceitos a respeito de lugares ou de grupos de pessoas. Devem examinar por si mesmos, e às vezes encontrarão o bem onde não esperavam encontrar nenhum. Muitas pessoas são afastadas dos caminhos da religião pelos preconceitos descabidos que formam. A melhor maneira de desfazer as falsas noções sobre a religião é pô-la à prova.
Em Natanael não havia dolo. A sua profissão de fé não era hipócrita. Ele não era dissimulado nem desonesto; era um caráter íntegro, um homem verdadeiramente reto e piedoso. Cristo sabe o que os homens realmente são. Ele nos conhece? Desejemos conhecê-lo. Busquemos e peçamos em oração ser verdadeiros israelitas, nos quais não há dolo; verdadeiramente cristãos, aprovados pelo próprio Cristo. Há coisas fracas, imperfeitas e pecaminosas em todos, mas a hipocrisia não faz parte do caráter de um crente.
Jesus presenciou o que se passou quando Natanael estava debaixo da figueira. Provavelmente ele estava então em fervorosa oração, buscando orientação quanto à Esperança e Consolação de Israel, onde nenhum olho humano o via. Isso lhe mostrou que o nosso Senhor conhecia os segredos do seu coração. Por meio de Cristo temos comunhão com os santos anjos e somos beneficiados por eles; e as coisas do céu e as coisas da terra são reconciliadas e unidas entre si.