João 3
Do Comentário Conciso de Matthew Henry, na tradução do Bíblia.teo.br. Ler João 3
Versículos 1–21
Ler João 3:1-21Nicodemos teve medo, ou vergonha, de ser visto com Cristo; por isso veio de noite. Quando a religião está fora de moda, há muitos nicodemitas. Mas, embora tenha vindo de noite, Jesus lhe deu as boas-vindas e, com isso, nos ensinou a animar os bons começos, ainda que fracos. E, embora agora tenha vindo de noite, depois reconheceu a Cristo publicamente. Ele não conversou com Cristo sobre assuntos de Estado, embora fosse um governante, mas sobre as preocupações da sua própria alma e da sua salvação, e foi direto a elas.
O nosso Salvador falou da necessidade e da natureza da regeneração, ou novo nascimento, e imediatamente dirigiu Nicodemos à fonte da santidade do coração. O nascimento é o começo da vida; nascer de novo é começar a viver de novo, como os que viveram muito mal ou com pouco proveito. Precisamos ter uma nova natureza, novos princípios, novas afeições, novos propósitos. No nosso primeiro nascimento éramos corruptos, formados em pecado; portanto, precisamos ser feitos novas criaturas. Nenhuma expressão mais forte poderia ter sido escolhida para designar uma mudança de estado e de caráter tão grande e tão notável. Precisamos ser inteiramente diferentes do que éramos antes, pois aquilo que começa a existir em determinado momento não é, e não pode ser, o mesmo que existia antes.
Este novo nascimento vem do céu, Jo 1:13, e a sua tendência é para o céu. É uma grande mudança operada no coração do pecador pelo poder do Espírito Santo. Significa que algo é feito em nós e por nós, algo que não podemos fazer por nós mesmos. Algo é operado, pelo qual começa uma vida tal que durará para sempre. De outro modo não podemos esperar nenhum benefício por meio de Cristo; isso é necessário para a nossa felicidade aqui e no porvir.
Nicodemos entendeu mal o que Cristo disse, como se não houvesse outro modo de regenerar e remodelar uma alma imortal senão reformando o corpo. Mas reconheceu a sua ignorância, o que mostra desejo de ser mais bem instruído. O Senhor Jesus então explica melhor. Ele mostra o Autor dessa bendita mudança. Ela não é operada por nenhuma sabedoria ou poder nosso, mas pelo poder do bendito Espírito. Fomos formados em iniquidade, o que torna necessário que a nossa natureza seja mudada. Não devemos nos maravilhar com isso; pois, quando consideramos a santidade de Deus, a depravação da nossa natureza e a felicidade que nos é proposta, não acharemos estranho que se dê tanta ênfase a isso.
A obra regeneradora do Espírito Santo é comparada à água. Também é provável que Cristo tenha feito referência à ordenança do batismo. Não que todos os que são batizados, e somente eles, sejam salvos; mas, sem aquele novo nascimento que é operado pelo Espírito e significado pelo batismo, ninguém será súdito do reino dos céus. A mesma palavra significa tanto o vento como o Espírito. O vento sopra onde quer, quanto a nós; é Deus quem o dirige. O Espírito envia as suas influências onde, quando, sobre quem e na medida e no grau que lhe apraz. Embora as causas estejam ocultas, os efeitos são evidentes, quando a alma é levada a lamentar o pecado e a ansiar por Cristo.
A exposição que Cristo fez da doutrina e da necessidade da regeneração, ao que parece, não a tornou mais clara para Nicodemos. Assim, as coisas do Espírito de Deus são loucura para o homem natural. Muitos pensam que não pode ser provado aquilo em que não conseguem crer. O discurso de Cristo sobre as verdades do evangelho, Jo 3:13, mostra a insensatez dos que consideram essas coisas estranhas; e nos recomenda que as investiguemos. Jesus Cristo é, em todos os sentidos, capaz de nos revelar a vontade de Deus, pois desceu do céu e, no entanto, está no céu. Temos aqui uma indicação das duas naturezas distintas de Cristo em uma só pessoa, de modo que, sendo o Filho do Homem, ele está, contudo, no céu. Deus é “”, e o céu é a morada da sua santidade. O conhecimento disso tem de vir do alto e só pode ser recebido pela fé.
Jesus Cristo veio para nos salvar curando-nos, como os filhos de Israel, picados por serpentes ardentes, foram curados e viveram olhando para a serpente de bronze, Nm 21:9. Nisso observe a natureza mortal e destrutiva do pecado. Pergunte às consciências despertas, pergunte aos pecadores condenados: eles lhe dirão que, por mais encantadoras que sejam as seduções do pecado, no fim ele morde como uma serpente.
Veja o remédio poderoso contra essa doença fatal. Cristo nos é claramente apresentado no evangelho. Aquele a quem ofendemos é a nossa Paz, e o meio de recorrer à cura é crer. Se alguns desprezam a tal ponto a sua doença, o pecado, ou o método de cura por meio de Cristo, que não recebem a Cristo nos termos dele, a ruína deles cai sobre a sua própria cabeça. Ele disse: Olhai e sede salvos, olhai e vivei; levantem os olhos da sua fé para Cristo crucificado. E, enquanto não tivermos graça para fazer isso, não seremos curados, mas continuaremos feridos pelas picadas de Satanás e em estado de morte.
Jesus Cristo veio para nos salvar perdoando-nos, a fim de que não morrêssemos pela sentença da lei. Eis o evangelho, boas-novas de verdade. Eis o amor de Deus, que deu o seu Filho pelo mundo. Deus amou o mundo de tal maneira; de modo tão real, tão rico. Contemple e admire-se: que o grande Deus ame um mundo tão sem valor!
Eis também o grande dever do evangelho: crer em Jesus Cristo. Tendo Deus nos dado Cristo para ser o nosso Profeta, Sacerdote e Rei, devemos entregar-nos a ele para sermos governados, ensinados e salvos por ele. E eis o grande benefício do evangelho: todo aquele que crê em Cristo não perecerá, mas terá a vida eterna. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo e, assim, salvando-o. O mundo não podia ser salvo senão por meio dele; em nenhum outro há salvação.
Tudo isso mostra a felicidade dos verdadeiros crentes: o que crê em Cristo não é condenado. Embora tenha sido um grande pecador, não é tratado segundo o que os seus pecados merecem. Quão grande é o pecado dos incrédulos! Deus enviou, para nos salvar, Aquele que lhe era o mais querido; e ele não será o mais querido para nós?
Quão grande é a miséria dos incrédulos! Eles já estão condenados, o que fala de uma condenação certa, de uma condenação presente. A ira de Deus agora se fixa sobre eles, e o seu próprio coração os condena. Há também uma condenação fundada na culpa passada deles: estão expostos à lei por todos os seus pecados, porque não têm, pela fé, parte no perdão do evangelho. A incredulidade é um pecado contra o remédio. Brota da inimizade do coração do homem contra Deus, do amor ao pecado sob alguma forma.
Leia também a sentença dos que não quiseram conhecer a Cristo. As obras pecaminosas são obras das trevas. O mundo ímpio se mantém o mais longe que pode desta luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Cristo é odiado porque o pecado é amado. Se não odiassem o conhecimento que salva, não se acomodariam tranquilamente numa ignorância que condena.
Por outro lado, os corações renovados dão boas-vindas a esta luz. O homem bom age com verdade e sinceridade em tudo o que faz. Deseja saber qual é a vontade de Deus e cumpri-la, mesmo contra o seu próprio interesse mundano. Houve uma mudança em todo o seu caráter e em toda a sua conduta. O amor de Deus está derramado no seu coração pelo Espírito Santo e tornou-se o princípio que rege as suas ações. Enquanto continua sob o peso de uma culpa não perdoada, pouco pode haver além de um temor servil de Deus; mas, quando as suas dúvidas se desfazem, quando ele vê o fundamento justo sobre o qual esse perdão se assenta, descansa nele como seu e se une a Deus por um amor não fingido. As nossas obras são boas quando a vontade de Deus é a regra delas e a glória de Deus é o fim delas; quando são feitas na força dele e por amor dele; para ele, e não para os homens.
A regeneração, ou novo nascimento, é um assunto a que o mundo é muito avesso; é, contudo, a grande preocupação, em comparação com a qual tudo o mais é insignificante. De que adianta termos comida em abundância para comer e variedade de roupas para vestir, se não nascemos de novo? Se, depois de algumas manhãs e tardes passadas em alegria irrefletida, prazer carnal e dissolução, morremos em nossos pecados e nos deitamos em tristeza? De que adianta sermos perfeitamente capazes de desempenhar o nosso papel na vida, em todos os demais aspectos, se no fim ouvirmos do Supremo Juiz: “”?
Versículos 22–36
Ler João 3:22-36João estava plenamente satisfeito com o lugar e a obra que lhe foram designados; mas Jesus veio para uma obra mais importante. Ele também sabia que Jesus cresceria em honra e influência, pois do seu governo e da sua paz não haveria fim, ao passo que ele mesmo seria menos seguido. João sabia que Jesus vinha do céu como o Filho de Deus, enquanto ele era um homem pecador e mortal, que só podia falar dos assuntos mais simples da religião. As palavras de Jesus eram as palavras de Deus; ele tinha o Espírito não por medida, como os profetas, mas em toda a plenitude. A vida eterna só podia ser obtida pela fé nele, e assim podia ser alcançada; ao passo que todos os que não creem no Filho de Deus não podem participar da salvação, mas a ira de Deus permanece sobre eles para sempre.