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Manhã

“O Deus eterno é a tua habitação.”

A palavra traduzida aqui por “habitação” (em outras versões, “refúgio”) traz a ideia de “morada”, de “lugar onde se vive”, o que nos dá o pensamento de que Deus é a nossa morada, o nosso lar. Há plenitude e doçura nesta metáfora, pois o nosso lar é querido ao nosso coração, ainda que seja a mais humilde choupana ou o mais pobre sótão; e muito mais querido é o nosso bendito Deus, em quem vivemos, e nos movemos, e existimos. É em casa que nos sentimos seguros: fechamos a porta ao mundo e habitamos em quieta segurança. Assim, quando estamos com o nosso Deus, “não tememos mal algum”. Ele é o nosso abrigo e o nosso retiro, o nosso refúgio permanente. Em casa, descansamos; é lá que encontramos repouso depois do cansaço e da labuta do dia. E assim o nosso coração encontra descanso em Deus quando, cansados das lutas da vida, nos voltamos para ele, e a nossa alma repousa tranquila. Em casa, também, abrimos o coração; não temos medo de ser mal compreendidos, nem de que as nossas palavras sejam mal interpretadas. Assim, quando estamos com Deus, podemos ter comunhão livre com ele, revelando todos os nossos desejos escondidos; pois, se “o segredo do SENHOR é com aqueles que o temem”, os segredos dos que o temem devem estar, e precisam estar, com o seu Senhor. O lar é também o lugar da nossa felicidade mais verdadeira e mais pura, e é em Deus que o nosso coração encontra o seu mais profundo deleite. Temos nele uma alegria que ultrapassa de longe todas as outras. É também pelo lar que trabalhamos e nos esforçamos. A lembrança dele dá forças para suportar o fardo diário e apressa os dedos para cumprir a tarefa; e nesse sentido também podemos dizer que Deus é o nosso lar. O amor por ele nos fortalece. Pensamos nele na pessoa do seu Filho querido, e um vislumbre do rosto sofredor do Redentor nos constrange a trabalhar pela sua causa. Sentimos que precisamos trabalhar, pois ainda temos irmãos a serem salvos, e temos de alegrar o coração do nosso Pai trazendo para casa os seus filhos errantes; queremos encher de santa alegria a família sagrada no meio da qual vivemos. Felizes os que têm assim o Deus de Jacó por seu refúgio!

Noite

“Basta ao discípulo ser como seu mestre.”

Ninguém contestará esta afirmação, pois não ficaria bem que o servo fosse exaltado acima do seu Senhor. Quando o nosso Senhor esteve na terra, que tratamento recebeu? As suas reivindicações foram reconhecidas, as suas instruções seguidas, as suas perfeições adoradas por aqueles a quem ele veio abençoar? Não; “era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens”. Fora do arraial era o seu lugar; carregar a cruz era a sua ocupação. O mundo lhe deu consolo e descanso? “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.” Esta terra inóspita não lhe deu abrigo: lançou-o fora e o crucificou. Tal deve ser — se você é seguidor de Jesus e mantém um andar e um proceder coerentes e semelhantes aos de Cristo — a sorte daquela parte da sua vida espiritual que, na sua manifestação exterior, fica à vista dos homens. Eles a tratarão como trataram o Salvador: vão desprezá-la. Não sonhe que os mundanos o admirarão, ou que, quanto mais santo e mais semelhante a Cristo você for, mais pacificamente as pessoas o tratarão. Não deram valor à pedra preciosa lapidada; como dariam valor à joia bruta? “Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” Se fôssemos mais semelhantes a Cristo, seríamos mais odiados pelos seus inimigos. Seria triste desonra para um filho de Deus ser o favorito do mundo. É muito mau sinal ouvir um mundo ímpio bater palmas e gritar “muito bem” para o cristão. Ele pode começar a examinar o seu caráter e perguntar-se se não andou fazendo algo errado, quando os injustos lhe dão a sua aprovação. Sejamos fiéis ao nosso Mestre e não tenhamos amizade com um mundo cego e vil que o despreza e rejeita. Longe de nós buscar uma coroa de honra onde o nosso Senhor encontrou uma coroa de espinhos.

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias