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Manhã

“Manancial fechado, fonte selada.”

Nesta metáfora, que se refere à vida interior do crente, temos com muita clareza a ideia de segredo. É um manancial fechado: assim como havia no Oriente fontes sobre as quais se construía um edifício, de modo que ninguém podia chegar a elas, a não ser os que conheciam a entrada secreta, assim é o coração do crente quando é renovado pela graça: há dentro dele uma vida misteriosa que nenhuma habilidade humana pode tocar. É um segredo que nenhum outro homem conhece; mais ainda, que o próprio homem que o possui não consegue contar ao seu vizinho. O texto inclui não só o segredo, mas também a separação. Não é a fonte comum, da qual todo transeunte pode beber; é uma fonte guardada e preservada de todos os outros; uma fonte que traz uma marca particular — o selo real de um rei —, de modo que todos podem perceber que não é uma fonte comum, mas uma fonte que tem dono e que foi posta à parte, sozinha. Assim é a vida espiritual. Os escolhidos de Deus foram separados no decreto eterno; foram separados por Deus no dia da redenção; e são separados por possuírem uma vida que os outros não têm; e lhes é impossível sentir-se em casa no mundo ou deleitar-se nos seus prazeres. Há também a ideia de santidade. O manancial fechado é reservado para o uso de uma pessoa especial: e assim é o coração do cristão. É uma fonte guardada para Jesus. Todo cristão deve sentir que traz sobre si o selo de Deus — e deve poder dizer com Paulo: “Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”. Outra ideia se destaca: a de segurança. Ah, como é firme e segura a vida interior do crente! Ainda que todos os poderes da terra e do inferno se unissem contra ela, esse princípio imortal continuaria a existir, pois aquele que o deu empenhou a sua vida pela preservação dele. E “qual é aquele que vos fará mal”, quando Deus é o seu protetor?

Noite

“Tu és desde a eternidade.”

Cristo é eterno. Dele podemos cantar com Davi: “O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo”. Alegre-se, crente, em Jesus Cristo, o mesmo ontem, e hoje, e eternamente. Jesus sempre foi. O Menino nascido em Belém estava unido ao Verbo, que era no princípio, por quem todas as coisas foram feitas. O título com que Cristo se revelou a João em Patmos foi: “Aquele que é, e que era, e que há de vir”. Se ele não fosse Deus desde a eternidade, não poderíamos amá-lo com tanta devoção; não poderíamos sentir que ele tem parte no amor eterno, que é a fonte de todas as bênçãos da aliança; mas, como ele estava com o Pai desde toda a eternidade, seguimos a corrente do amor divino até ele, tanto quanto até o seu Pai e o bendito Espírito. Assim como o nosso Senhor sempre foi, assim também ele é para todo o sempre. Jesus não está morto; “vive sempre para interceder por nós”. Recorra a ele em todas as suas horas de necessidade, pois ele ainda está esperando para abençoá-lo. Além disso, Jesus, nosso Senhor, sempre será. Se Deus poupar a sua vida até completar os seus setenta anos, você verá que a fonte que purifica ainda está aberta e que o seu precioso sangue não perdeu o poder; verá que o Sacerdote que encheu a fonte da cura com o seu próprio sangue vive para purificá-lo de toda iniquidade. Quando só lhe restar travar a última batalha, você verá que a mão do seu Capitão vitorioso não enfraqueceu — o Salvador vivo animará o santo que morre. Quando entrar no céu, você o encontrará lá com o orvalho da sua mocidade; e, por toda a eternidade, o Senhor Jesus continuará sendo para o seu povo a fonte perene de alegria, de vida e de glória. Que você tire águas vivas deste poço sagrado! Jesus sempre foi, sempre é, sempre será. Ele é eterno em todos os seus atributos, em todos os seus ofícios, em todo o seu poder e na sua disposição de abençoar, consolar, guardar e coroar o seu povo escolhido.

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias