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Manhã

“Não entres em questões loucas.”

Os nossos dias são poucos e são muito mais bem empregados em fazer o bem do que em disputar sobre assuntos que, quando muito, têm importância secundária. Os antigos escolásticos fizeram um mal imenso com as suas discussões incessantes de temas sem nenhuma importância prática; e as nossas igrejas sofrem muito com pequenas guerras em torno de pontos obscuros e questões sem importância. Depois de dito tudo o que se pode dizer, nenhum dos lados fica mais sábio, e por isso a discussão não promove o conhecimento mais do que promove o amor, e é tolice semear num campo tão estéril. Questões sobre pontos em que a Escritura se cala; sobre mistérios que pertencem só a Deus; sobre profecias de interpretação duvidosa; e sobre simples maneiras de observar cerimônias humanas são todas loucas, e os sábios as evitam. A nossa tarefa não é fazer nem responder perguntas loucas, mas evitá-las por completo; e, se observarmos o preceito do apóstolo (Tt 3:8) de procurar aplicar-nos às boas obras, nos veremos ocupados demais com assuntos proveitosos para nos interessarmos muito por contendas indignas, briguentas e desnecessárias.

Há, porém, algumas questões que são o contrário de loucas, que não devemos evitar, mas enfrentar com franqueza e honestidade, como estas: Creio no Senhor Jesus Cristo? Estou sendo renovado no espírito do meu entendimento? Ando não segundo a carne, mas segundo o Espírito? Estou crescendo na graça? O meu procedimento é ornamento da doutrina de Deus, meu Salvador? Estou aguardando a vinda do Senhor e vigiando como deve fazer o servo que espera o seu senhor? Que mais posso fazer por Jesus? Perguntas como estas exigem com urgência a nossa atenção; e, se temos tido alguma inclinação para discussões mesquinhas, voltemos agora a nossa capacidade crítica para um serviço muito mais proveitoso. Sejamos pacificadores e procuremos levar os outros, pelo preceito e pelo exemplo, a “não entrar em questões loucas”.

Noite

“Ah, se eu soubesse onde o poderia achar!”

No extremo da sua aflição, Jó clamou pelo Senhor. O desejo ardente de um filho de Deus aflito é ver mais uma vez o rosto do seu Pai. A sua primeira oração não é: “Ah, se eu fosse curado da doença que agora apodrece cada parte do meu corpo!”, nem mesmo: “Ah, se eu visse os meus filhos devolvidos das garras da sepultura, e os meus bens mais uma vez tirados da mão do saqueador!”; mas o primeiro e mais alto clamor é: “Ah, se eu soubesse onde poderia achar aquele que é o meu Deus! Então me chegaria ao seu tribunal!” Os filhos de Deus correm para casa quando a tempestade chega. É o instinto, nascido do céu, de uma alma agraciada buscar abrigo de todos os males debaixo das asas de Jeová. “Aquele que fez de Deus o seu refúgio” poderia servir de título ao verdadeiro crente. O hipócrita, quando afligido por Deus, se ressente do castigo e, como um escravo, fugiria do Senhor que o açoitou; mas o verdadeiro herdeiro do céu não é assim: ele beija a mão que o feriu e busca abrigo da vara no seio do Deus que o olhou com severidade. O desejo de Jó de ter comunhão com Deus se intensificou com o fracasso de todas as outras fontes de consolo. O patriarca se afastou dos seus miseráveis amigos e olhou para o trono celestial, assim como o viajante deixa de lado o seu odre vazio e se dirige a toda a pressa ao poço. Ele se despede das esperanças nascidas da terra e clama: “Ah, se eu soubesse onde poderia achar o meu Deus!” Nada nos ensina tanto o valor do Criador como aprender o vazio de tudo o mais. Afastando-nos com amargo desprezo das colmeias da terra, onde não encontramos mel, mas muitos ferrões afiados, alegramo-nos naquele cuja palavra fiel é mais doce do que o mel e o licor dos favos. Em toda tribulação, devemos primeiro procurar sentir a presença de Deus conosco. Basta que desfrutemos do seu sorriso, e poderemos carregar a nossa cruz diária de boa vontade, por amor dele.

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias