B Bíblia.teo

Manhã

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus etc.”

Esta oração começa onde toda oração verdadeira deve começar: com o espírito de adoção, “Pai nosso”. Não há oração aceitável enquanto não pudermos dizer: “Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai”. Esse espírito de criança logo percebe a grandeza do Pai “que está nos céus” e se eleva à adoração reverente: “Santificado seja o teu nome”. A criança que balbucia “Aba, Pai” cresce até ser o querubim que clama “Santo, Santo, Santo”. Da adoração arrebatada ao ardente espírito missionário há apenas um passo, e ele é fruto certo do amor filial e da adoração reverente: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Segue-se a sincera expressão de dependência de Deus: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”. Mais iluminado pelo Espírito, ele descobre que não é apenas dependente, mas pecador, e por isso implora misericórdia: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”; e, perdoado, com a justiça de Cristo imputada a ele e sabendo-se aceito por Deus, suplica humildemente a perseverança na santidade: “Não nos induzas à tentação”. Quem foi de fato perdoado anseia por não ofender de novo; a posse da justificação leva a um desejo ardente de santificação. “Perdoa-nos as nossas dívidas”: isso é a justificação; “não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal”: isso é a santificação, na sua forma negativa e na positiva. Como resultado de tudo isso, vem uma triunfante atribuição de louvor: “Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém”. Alegramo-nos porque o nosso Rei reina na providência e reinará na graça, desde o rio até os confins da terra, e o seu domínio não terá fim. Assim, do sentimento de adoção até a comunhão com o nosso Senhor que reina, este breve modelo de oração conduz a alma. Senhor, ensina-nos a orar assim.

Noite

“Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem.”

Os discípulos deveriam ter reconhecido Jesus. Tinham ouvido a sua voz tantas vezes e contemplado aquele rosto desfigurado com tanta frequência, que é de admirar que não o tenham descoberto. Mas não acontece o mesmo com você? Faz tempo que você não vê Jesus. Você esteve à mesa dele e não o encontrou ali. Você está, nesta noite, numa aflição escura, e, embora ele diga claramente: “Sou eu, não temais”, você não consegue distingui-lo. Ai de nós! Os nossos olhos estão como que fechados. Conhecemos a sua voz; olhamos para o seu rosto; reclinamos a cabeça no seu peito; e, no entanto, embora Cristo esteja bem perto de nós, dizemos: “Ah, se eu soubesse onde o poderia achar!” Deveríamos conhecer Jesus, pois temos as Escrituras, que refletem a sua imagem; e, contudo, como é possível abrir aquele livro precioso sem ter um vislumbre do Amado! Querido filho de Deus, é este o seu estado? Jesus apascenta entre os lírios da Palavra, e você anda entre esses lírios e, contudo, não o vê. Ele costuma andar pelas clareiras das Escrituras e ter comunhão com o seu povo, como o Pai fazia com Adão pela viração do dia; e você está no jardim das Escrituras, mas não consegue vê-lo, embora ele esteja sempre ali. E por que não o vemos? No nosso caso, como no dos discípulos, a causa é a incredulidade. Eles evidentemente não esperavam ver Jesus, e por isso não o reconheceram. Em grande medida, nas coisas espirituais recebemos do Senhor aquilo que esperamos. Só a fé pode nos levar a ver Jesus. Faça desta a sua oração: “Senhor, abre os meus olhos, para que eu veja o meu Salvador presente comigo”. É uma bênção desejar vê-lo; mas, oh, é muito melhor contemplá-lo! Para os que o buscam ele é bondoso; mas, para os que o encontram, ele é precioso além de toda expressão!

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias