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Manhã

“Israel serviu por uma mulher, e por uma mulher guardou o gado.”

Jacó, ao repreender Labão, descreve assim o seu próprio trabalho: “Estes vinte anos eu estive contigo. Não te trouxe eu o despedaçado; eu o pagava; o furtado de dia e o furtado de noite da minha mão o requerias. Estava eu assim: de dia me consumia o calor, e de noite a geada; e o meu sono fugiu dos meus olhos”. Ainda mais trabalhosa do que essa foi a vida do nosso Salvador aqui embaixo. Ele vigiou todas as suas ovelhas até apresentar, como sua última prestação de contas: “Dos que me deste nenhum deles perdi”. A sua cabeça estava cheia de orvalho, e os seus cabelos, das gotas da noite. O sono fugiu dos seus olhos, pois passava a noite inteira em oração, lutando pelo seu povo. Numa noite era preciso interceder por Pedro; logo depois, outro reclamava a sua intercessão com lágrimas. Nenhum pastor sentado sob o céu frio, olhando para as estrelas, poderia jamais fazer tantas queixas da dureza do seu trabalho como Jesus Cristo poderia ter feito, se quisesse, por causa do rigor do seu serviço para conquistar a sua esposa —

“Os montes frios e o ar da meia-noite
Viram o fervor da sua oração;
O deserto conheceu as suas tentações,
O seu combate e a sua vitória também.”

É doce meditar no paralelo espiritual de Labão ter exigido todas as ovelhas da mão de Jacó. Se fossem despedaçadas pelas feras, Jacó tinha de pagar; se alguma morresse, ele respondia como fiador por todas. Não foi o trabalho de Jesus pela sua Igreja o trabalho de alguém que estava sob a obrigação de fiador de levar cada crente, são e salvo, às mãos daquele que os tinha confiado aos seus cuidados? Olhe para Jacó no seu trabalho, e você verá uma figura daquele de quem lemos: “Como pastor apascentará o seu rebanho”.

Noite

“A virtude da sua ressurreição.”

A doutrina de um Salvador ressuscitado é extremamente preciosa. A ressurreição é a pedra angular de todo o edifício do cristianismo. É a pedra de fecho do arco da nossa salvação. Seria preciso um volume inteiro para descrever todas as correntes de água viva que brotam desta única fonte sagrada, a ressurreição do nosso querido Senhor e Salvador Jesus Cristo; mas saber que ele ressuscitou e ter comunhão com ele como ressuscitado — conviver com o Salvador ressuscitado possuindo uma vida ressuscitada; vê-lo sair do túmulo saindo nós mesmos do túmulo do mundanismo — isso é ainda mais precioso. A doutrina é a base da experiência; mas, assim como a flor é mais bela do que a raiz, a experiência da comunhão com o Salvador ressuscitado é mais bela do que a própria doutrina. Quero que você creia que Cristo ressuscitou dos mortos a ponto de cantar sobre isso, e que tire todo o consolo que lhe for possível extrair deste fato tão bem comprovado e tão bem testemunhado; mas eu lhe peço: não se contente nem mesmo com isso. Embora você não possa, como os discípulos, vê-lo com os olhos do corpo, eu o exorto a aspirar a ver Cristo Jesus com os olhos da fé; e, embora, como Maria Madalena, você não possa tocá-lo, pode ter o privilégio de conversar com ele e de saber que ele ressuscitou, estando você mesmo ressuscitado nele para andar em novidade de vida. Conhecer um Salvador crucificado como aquele que crucificou todos os meus pecados é um alto grau de conhecimento; mas conhecer um Salvador ressuscitado como aquele que me justificou, e perceber que ele me concedeu uma vida nova, fazendo de mim uma nova criatura pela sua própria novidade de vida, essa é uma experiência nobre: ninguém deveria se dar por satisfeito com menos do que isso. Que você possa “conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição”. Por que almas vivificadas com Jesus haveriam de usar as mortalhas do mundanismo e da incredulidade? Levante-se, pois o Senhor ressuscitou.

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias