B Bíblia.teo

Manhã

“Porque derramarei água sobre o sedento.”

Quando um crente cai num estado de ânimo baixo e triste, muitas vezes tenta sair dele castigando a si mesmo com temores sombrios e lúgubres. Esse não é o caminho para se levantar do pó, mas para continuar nele. Duvidar para aumentar a nossa graça é como acorrentar a asa da águia para fazê-la subir. Não é a lei, mas o evangelho que salva no princípio a alma que busca; e não é a escravidão da lei, mas a liberdade do evangelho que pode restaurar depois o crente desfalecido. O medo servil não traz de volta a Deus o desviado, mas os doces apelos do amor o atraem ao peito de Jesus. Você está nesta manhã com sede do Deus vivo, e infeliz porque não consegue encontrá-lo para o deleite do seu coração? Perdeu a alegria da religião, e é esta a sua oração: “Torna a dar-me a alegria da tua salvação”? Você tem consciência também de que está estéril como a terra seca; de que não está produzindo para Deus o fruto que ele tem o direito de esperar de você; de que não é tão útil na igreja, ou no mundo, quanto o seu coração deseja ser? Então aqui está exatamente a promessa de que você precisa: “Derramarei água sobre o sedento”. Você receberá a graça de que tanto precisa, e a terá até o limite das suas necessidades. A água refresca o sedento: você será refrigerado; os seus desejos serão satisfeitos. A água desperta a vida adormecida das plantas: a sua vida será despertada por nova graça. A água faz inchar os botões e amadurecer os frutos: você terá graça que faz frutificar, será feito frutífero nos caminhos de Deus. Toda boa qualidade que houver na graça divina, você a desfrutará plenamente. Todas as riquezas da graça divina você as receberá em abundância; ficará, por assim dizer, encharcado delas; e, como às vezes os prados são inundados pelos rios que transbordam e os campos se tornam lagoas, assim será com você: a terra sedenta se tornará mananciais de águas.

Noite

“Dizendo: Este é o sangue do testamento que Deus vos tem mandado.”

Há um poder estranho no próprio nome de sangue, e vê-lo sempre comove. Um coração bondoso não suporta ver um pardal sangrar e, a menos que esteja acostumado, desvia-se com horror da matança de um animal. Quanto ao sangue dos homens, é coisa consagrada: derramá-lo com ira é homicídio; desperdiçá-lo na guerra é um crime terrível. Essa solenidade vem do fato de que o sangue é a vida, e de que derramá-lo é sinal de morte? Pensamos que sim. Quando subimos à contemplação do sangue do Filho de Deus, o nosso temor reverente aumenta ainda mais, e estremecemos ao pensar na culpa do pecado e na terrível pena que sofreu aquele que levou o pecado. O sangue, sempre precioso, não tem preço quando jorra do lado de Emanuel. O sangue de Jesus sela a aliança da graça e a torna para sempre segura. As alianças antigas eram feitas com sacrifício, e a aliança eterna foi ratificada da mesma maneira. Ah, que deleite ser salvo sobre o fundamento seguro de compromissos divinos que não podem ser desonrados! A salvação pelas obras da lei é um navio frágil e avariado, cujo naufrágio é certo; mas o navio da aliança não teme tempestades, pois o sangue garante tudo. O sangue de Jesus tornou válido o seu testamento. Os testamentos não têm força enquanto os testadores não morrem. Sob esta luz, a lança do soldado é um bendito auxílio à fé, pois provou que o nosso Senhor estava de fato morto. Sobre isso não pode haver dúvida, e podemos tomar posse com ousadia dos legados que ele deixou para o seu povo. Felizes os que veem o seu direito às bênçãos celestiais assegurado por um Salvador que morreu. Mas este sangue não tem uma voz para nós? Não nos manda santificar-nos para aquele por quem fomos remidos? Não nos chama à novidade de vida e nos incita à inteira consagração ao Senhor? Ah, que o poder do sangue seja conhecido e sentido em nós nesta noite!

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias