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Manhã

“Eis que nas palmas das minhas mãos eu te gravei.”

Sem dúvida, parte do espanto concentrado na palavra “Eis” é provocada pelo lamento incrédulo da frase anterior. Sião dizia: “Já me desamparou o SENHOR, e o meu Senhor se esqueceu de mim”. Como a mente divina parece espantada com essa incredulidade perversa! Que pode ser mais assombroso do que as dúvidas e os temores sem fundamento do povo favorecido de Deus? A amorosa palavra de repreensão do Senhor deveria nos fazer corar; ele exclama: “Como posso ter-me esquecido de ti, se te gravei nas palmas das minhas mãos? Como ousas duvidar da minha lembrança constante, se o memorial está posto na minha própria carne?” Ó incredulidade, que estranho prodígio és tu! Não sabemos com o que nos admirar mais: com a fidelidade de Deus ou com a incredulidade do seu povo. Ele cumpre a sua promessa mil vezes, e, no entanto, a próxima provação nos faz duvidar dele. Ele nunca falha; nunca é um poço seco; nunca é como um sol que se põe, um meteoro passageiro ou um vapor que se desfaz; e, contudo, vivemos continuamente aflitos com ansiedades, molestados por suspeitas e perturbados por temores, como se o nosso Deus fosse a miragem do deserto. “Eis” é uma palavra que pretende despertar admiração. Aqui, de fato, temos um tema para nos maravilharmos. O céu e a terra bem podem se espantar de que rebeldes alcancem tamanha proximidade do coração do amor infinito a ponto de estarem escritos nas palmas das suas mãos. “Eu te gravei.” Não diz: “o teu nome”. O nome está lá, mas não é tudo: “Eu te gravei”. Veja a plenitude disso! Gravei a tua pessoa, a tua imagem, o teu caso, as tuas circunstâncias, os teus pecados, as tuas tentações, as tuas fraquezas, as tuas necessidades, as tuas obras; eu te gravei, tudo o que há em ti, tudo o que te diz respeito; pus-te inteiro ali. Dirás de novo algum dia que o teu Deus te abandonou, quando ele te gravou nas palmas das suas próprias mãos?

Noite

“E ser-me-eis testemunhas.”

Para aprender a cumprir o seu dever de testemunha de Cristo, olhe para o exemplo dele. Ele está sempre testemunhando: junto ao poço de Samaria ou no templo de Jerusalém; à beira do lago de Genesaré ou no alto do monte. Ele testemunha de noite e de dia; as suas orações poderosas falam a Deus tanto quanto os seus serviços diários. Testemunha em todas as circunstâncias; os escribas e fariseus não conseguem calar a sua boca; até diante de Pilatos ele dá testemunho de uma boa confissão. Testemunha com tanta clareza e nitidez que nele não há engano. Cristão, faça da sua vida um testemunho claro. Seja como o riacho em que se pode ver cada pedra no fundo — não como o córrego lamacento, do qual só se vê a superfície —, mas límpido e transparente, para que o amor do seu coração a Deus e aos homens seja visível a todos. Você não precisa dizer: “Eu sou verdadeiro”; seja verdadeiro. Não se gabe da sua integridade, mas seja reto. Assim o seu testemunho será tal que os homens não poderão deixar de vê-lo. Nunca, por medo do homem fraco, contenha o seu testemunho. Os seus lábios foram aquecidos com uma brasa tirada do altar; que eles falem como convém a lábios tocados pelo céu. “Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão.” Não observe as nuvens, não consulte o vento: a tempo e fora de tempo, testemunhe do Salvador; e, se acontecer de, por amor de Cristo e do evangelho, você ter de sofrer de alguma forma, não recue, mas alegre-se com a honra assim concedida, de ser considerado digno de sofrer com o seu Senhor; e alegre-se também com isto: os seus sofrimentos, as suas perdas e perseguições lhe servirão de tribuna, da qual você testemunhará de Cristo Jesus com mais vigor e com maior poder. Estude o seu grande Modelo e encha-se do seu Espírito. Lembre-se de que você precisa de muito ensino, muito amparo, muita graça e muita humildade, se o seu testemunho há de ser para a glória do seu Mestre.

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias