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Manhã

“Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo.”

A vida de fé é apresentada como um receber, um ato que implica justamente o oposto de qualquer coisa parecida com mérito. É simplesmente a aceitação de um presente. Como a terra bebe a chuva, como o mar recebe os rios, como a noite aceita a luz das estrelas, assim nós, sem dar nada, participamos de graça da graça de Deus. Os santos não são, por natureza, poços ou rios; são apenas cisternas em que a água viva corre; são vasos vazios em que Deus derrama a sua salvação. A ideia de receber implica a percepção de algo real, que torna a coisa uma realidade. Não se pode receber uma sombra; recebemos aquilo que tem substância. Assim é na vida de fé: Cristo se torna real para nós. Enquanto estamos sem fé, Jesus é para nós um mero nome, uma pessoa que viveu há muito tempo, tanto tempo que a sua vida agora é apenas história para nós! Por um ato de fé, Jesus se torna uma pessoa real na consciência do nosso coração. Mas receber também significa agarrar, tomar posse de. Aquilo que recebo se torna meu; aproprio-me do que me é dado. Quando recebo Jesus, ele se torna o meu Salvador, tão meu que nem a vida nem a morte poderão tirá-lo de mim. Tudo isso é receber Cristo: tomá-lo como o dom gratuito de Deus, torná-lo real no meu coração e apropriar-me dele como meu.

A salvação pode ser descrita como o cego que recebe a vista, o surdo que recebe a audição, o morto que recebe a vida; mas não recebemos só estas bênçãos: recebemos o próprio Cristo Jesus. É verdade que ele nos deu vida dentre os mortos. Deu-nos o perdão dos pecados; deu-nos a justiça imputada. Todas essas são coisas preciosas, mas não nos contentamos com elas; recebemos o próprio Cristo. O Filho de Deus foi derramado em nós, e nós o recebemos e nos apropriamos dele. Que cheio há de ficar o coração que recebe Jesus, a quem o próprio céu não pode conter!

Noite

“O Mestre diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?”

Jerusalém, no tempo da páscoa, era uma grande hospedaria; cada dono de casa tinha convidado os seus amigos, mas ninguém tinha convidado o Salvador, e ele não tinha morada própria. Foi pelo seu próprio poder sobrenatural que ele achou um cenáculo em que celebrar a festa. Assim é até hoje: Jesus não é recebido entre os filhos dos homens, exceto onde, pelo seu poder sobrenatural e pela sua graça, ele faz novo o coração. Todas as portas estão bem abertas para o príncipe das trevas, mas Jesus precisa abrir caminho para si ou pousar na rua. Foi pelo poder misterioso exercido pelo nosso Senhor que o dono da casa não fez nenhuma pergunta, mas imediatamente, com boa vontade e alegria, abriu o seu aposento. Quem ele era e o que era, não sabemos, mas aceitou prontamente a honra que o Redentor quis lhe conceder. Do mesmo modo ainda se descobre quem são e quem não são os escolhidos do Senhor; pois, quando o evangelho chega a alguns, eles lutam contra ele e não o querem; mas, onde os homens o recebem e lhe dão boas-vindas, isso é sinal certo de que há uma obra secreta acontecendo na alma e de que Deus os escolheu para a vida eterna. Você está disposto, querido leitor, a receber Cristo? Então não há dificuldade no caminho; Cristo será o seu hóspede; o próprio poder dele está agindo em você, tornando-o disposto. Que honra hospedar o Filho de Deus! O céu dos céus não pode contê-lo, e, no entanto, ele se digna a achar uma casa dentro do nosso coração! Não somos dignos de que ele entre debaixo do nosso telhado, mas que privilégio indizível quando ele se digna a entrar! Pois então ele faz um banquete e nos faz banquetear com ele de iguarias reais; sentamo-nos a uma mesa cujos manjares são imortais e dão imortalidade aos que deles se alimentam. Bem-aventurado entre os filhos de Adão aquele que hospeda o Senhor dos anjos.

De “Manhã e Noite” (Morning and Evening, 1865), de Charles H. Spurgeon, em domínio público, na tradução do Bíblia.teo.br. Todos os dias